terça-feira, 18 de maio de 2010

Gravura, outra


Desde há cerca de 30 anos que venho desenvolvendo um processo de gravura que, na sua raiz tem relação com as primeiras marcas resultantes das pegadas deixadas na lama ou em terrenos argilosos que solidificaram por concreção (Peche-Merle, Altamira, etc.).
Promoveram-se workshops tendo como base esse processo que me libertou de muita da toxicidade que rodeia a gravura.
Num deles, em Arzila, Marrocos, os participantes - Artistas vindos de várias latitudes - incentivaram-me a publicar um manual com os detalhes do processo.
O pequeno livro foi impresso e aí está dado à estampa, com lançamento oficial marcado para Novembro na altura da exposição no Palácio Galveias em Lisboa.
Chama-se "Gravura, outra - manual de gravura com pasta de pedra".
Entretanto já por aí vai circulando, apoós uma apresentação informal que teve lugar na Galeria Arthobler - Livraria Ler Devagar também em Lisboa, aquando da minha exposição de gravura que ali decorreu em Março.
Fica a fotografia da capa.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Uma promessa não cumprida

Prometi fazer a demonstração do calendário solar que é, conforme provei, a Pedra da Escrita de Serrazes.
Razões de ordem vária - burocráticas ou científicas por um lado, de saúde por outro - levaram-me a desistir, de momento, de voltar ao tema. Peço desculpas.
De novo deixo a Pedra entregue a um destino que não lhe devia estar destinado. Com mágoa.
Mas deixo-lhes hoje uma outra pedra, outra das muitas que são amadas. É um dos rochedos do Central Park, em Nova Iorque, desgastado e polido de tanto amor.

Central Park, New York


domingo, 27 de setembro de 2009

Testemunho

Foi a partir do segundo semestre do ano de 1983 – após o Solstício referido no texto de abertura deste blogue - que fui testando o Calendário agora apagado pelo telheiro cuja fotografia também se mostra na mesma entrada.
No conjunto das fotografias que hoje se mostram, tomadas uma semana após o Equinócio entre as 8h35 e as 14h20 do dia 28 de Setembro de 1983 – estava ausente no dia da ocorrência – pode seguir-se o trajecto da sombra até ao momento em que se coloca entre o Círculo do Verão e o correspondente ao do Outono.
Quisera repetir a experiência no Equinócio do Outono convidando os media e alguns amigos, mas vozes avisadas preveniram-me da aproximação das eleições que absorvem os tempos de antena e não estariam disponíveis para este.
Para contornar a falta de luz provocada pela cobertura da Pedra, montar-se-ia uma estaca maior que a testada anteriormente que, ultrapassando as placas de amianto, projectaria a sua sombra no prolongamento dos respectivos círculos.
Ficará para o Solstício do Verão, prometo.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Assilah 2009


E assim os olhos se me encheram de branco. Regresso aos sítios por onde me deixava perder em 1978.
Durante todos estes anos não me cansei de pensar – e de falar – num beco onde tudo era branco. Era pequeno, como também pequenas eram as casas onde tudo era caiado de branco. Também o chão o era.
Sentado na soleira de uma porta, com o sol já mais baixo que as muralhas, a ausência de sombra trazia-me uma indescritível paz, como que uma levitação. Por lá ficava até que os habitantes regressassem da oração da tarde.
E ali ao lado uma velha porta - que fora tapada, rebocada, caiada e que agora integrava um muro branco – e cuja memória se projectava em sombra rasante ao longo da luminosa superfície.
Da memória dessa porta já nada resta.
No meu trabalho ficaram outras marcas por aquelas deixadas. E que, entre outras, se estenderam até à Pedra da Escrita de Serrazes.
Não acredito que haja obras que existam por acaso.

Souk - gravura, 1978

Série Serrazes - Cast paper, 1982

domingo, 23 de agosto de 2009

Arzila

Agosto de 2009.

Arzila, 31 anos depois do primeiro Festival Cultural de tão gratas memórias.
Arzila foi sempre como que o centro de um certo mundo.
Ali coincidimos, por maior ou menor período de tempo e convívio, com Paolo Taviani, Alberto Moravia, Leopold Shenghor e outros mais em felizes e infindáveis noites de Ramadão em que se começava a cear às duas da madrugada, depois de um espectáculo ou da apresentação de um filme e da consequente discussão.
Alberto Moravia deitava-se cedo.
Arzila continua a ser o centro geométrico de encontros marcantes porque, em paralelo com o Festival existe uma vida sedimentada pelo tempo e pela fraternidade que nos leva ao reencontro do irmão preto – acho que de sangue – que é Mohammed Omar Khalil ou a novos – e sempre desejados - encontros como é o caso de Diego Moya, Artista Espanhol cuja obra mais recente ali mostrava, integrado na programação dos Encontros.
Apalpou as rugas da pedra e modelou rostos de velhos que, a avaliar pela idade, poderiam ter lutado pela libertação da terra agora defendida da fúria do mar pelas rochas exteriores à velha Muralha.
Generoso, colocou à minha disposição a memória do projecto a que chamou Gigabytes de Piedra e que, por ser também uma escrita da pedra, aqui me atrevo a citar parcialmente.

GIGABYTES DE PIEDRA
Diego Moya
Algo esencial para este trabajo: A través de ciertos aspectos elementales de la naturaleza estamos ante la presencia de los orígenes del universo. Lo que vemos en un cielo estrellado no es la luz del presente, sino de lo que pasó hace millones de años. Los estratos, la apariencia estructural de las rocas, nos hablan también de millones de años, a través de los cuales se fueron formando y manifestando.
Millones de “Gygabytes” de memoria están inscritos en esas sílices, acontecimientos prehistóricos, prehumanos, que se desvelan ante nuestros ojos.

PIEL DE LA TIERRA Y PIEL DE LAS GENTES.
El actual proyecto consiste en crear una relación entre la edad de la tierra y la edad de las gentes: la superficie de las rocas y la piel de personas mayores.
Piel de las gentes que, como “continente” de la vida, ofrece un contrapunto simbólico a las cortezas de la tierra. Poner en relación la piel de algunas personas mayores con las impresiones directas de las rocas: relación con el tiempo y la memoria.
Este proyecto se irá desarrolando en diferentes etapas con la obtención de calcos bi ó tridimensionales de algunos de sus relieves, que se extienden en toda su superficie durante cientos de metros cerca de la ciudad de Asilah. Una piel, una imagen de las huellas del tiempo y de los acontecimientos que las desencadenaron, una pregunta contínua sobre su origen.
Como queda dicho, el núcleo del proyecto se desarrolla en Asilah, Marruecos, donde se encuentran unas rocas de especial belleza y definición, y con las personas mayores de la ciudad, vecinos y conocidos desde hace años.


Aspecto de las rocas de referencia



Aspecto del políptico final


Para ver mais: http://www.diegomoya.org/obras/thumbnails.php?album=25

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Um Sol


Há três anos, numa das minhas incursões a Serrazes, fui conduzido até junto de um muro de pedra em pleno burgo, onde, dentre o granito azul predominante, se destaca uma pedra rosada que entra pela calçada abaixo. Gravadas tem algumas covinhas mas no seu lado direito, parcialmente enterrado no empedrado do caminho, revela um grupo de círculos concêntricos em tudo idênticos aos da Pedra da Escrita que dali dista em linha recta, cerca de mil e quinhentos metros.

O círculo exterior tem 40 cm. de diâmetro, mais 8 cm. que o maior – correspondente ao Verão – da Pedra da Escrita.

Sendo evidentes dois modos distintos de picotagem e dois níveis de erosão bem identificados que situam as gravações em tempos diferentes, colocou-se-me a questão se aquelas circunferências - dado o rigor imposto na sua feitura e o da sua geometria, sem dúvida saídos dos dedos da mesma família de artesãos - não teriam pertencido a uma tentativa, hipoteticamente abandonada, de produzir um outro calendário solar que a Pedra da Escrita teria vindo a substituir. Pura especulação, mas, até à sua confirmação devo contemplar todas as hipóteses.

Com a colaboração da Junta de Freguesia, procedeu-se no passado dia 6 de Julho aos trabalhos que se impunham: levantar a calçada para ver onde terminava a rocha para tentar perceber se fora para ali deslocada com o auxílio de uma zorra (era a hipótese mais plausível, pois existe outro pedaço de pedra com a mesma coloração no já citado muro), se ali teria estado sempre, ou ainda se haveria mais incisões.

Estas dúvidas foram prontamente dissipadas pelo aparecimento do corte da pedra em cunha larga, para ali transportada há cerca de um século, aquando da construção da casa que o muro cerca.

É nítida uma contida representação solar com três raios, numa capacidade de síntese impressionante.

A semelhança com os círculos da Pedra da Escrita é notória. Porém, no caso presente, porque se trata de um granito mais duro, os círculos, não tendo sido objecto de uma incisão tão profunda, são mais precisos.

Serrazes é uma terra com tradição no trabalho em pedra. Se, por um lado, a freguesia se desenvolveu graças a esse labor, por outro provocou a destruição de uma boa parte do seu património lítico, facto mais acentuado nas últimas décadas.

Neste sentido importa, em primeiro lugar, sensibilizar os responsáveis autárquicos para a importância da sua conservação, eventualmente com vista a um turismo cultural mais sensato que o da casca de melão que tudo leva à frente, tudo destrói.

Depois há que sensibilizar as populações – existe uma forte vontade da Junta de Freguesia que nesse sentido precisa de ser apoiada – para a circunstância de aqueles vestígios pertencerem aos seus antepassados; chamar a sua atenção para o facto de ao destruí-los, estarem a destruir os cemitérios dos seus antepassados, os ícones que veneraram, os instrumentos que conceberam para mais conscientemente amanharem a terra, da qual extraíram o sustento que os fez gente cujos descendentes são eles próprios.

Longo texto, mais um longo texto para um blogue. Mas também não venho todos os dias!

David de Almeida