quarta-feira, 21 de maio de 2014

Uma viagem pela gravura rupestre


Centro Universitário de S. Paulo, 17 de Maio de 2014 

 Dei os meus primeiros tropeções num troço da estrada romana que ligava Viseu ao Porto, Norte de Portugal, passando junto à capela da Senhora da Guia, entretanto erguida no Castro com o mesmo nome, onde, dadas as relações emocionais que meu Pai tinha com o lugar, passávamos alguns dias de Domingo.
 No dia da romaria dedicada ao Santo, sentava-me (sentavam-me) na “cadeira de S. Lourenço”, que mais não era, viria a descobri-lo mais tarde, que um altar de sacrifícios.
 E assim, naturalmente, descobria dolmens e menires que se cruzavam no meu caminho e cuja presença se viria a tornar numa forte componente do meu trabalho.
 Comecei por decalcar gravuras rupestres, percorri exaustivamente a viagem do sílex “regressando” à rocha lisa, na esperança de, ao encontrar o conceito, descobrir o objectivo do projecto.
 Adquiri assim alguma prática sobre processos de trabalho e épocas em que as incisões - algumas delas sobrepostas e gravadas em tempos distintos - tiveram lugar.
 Conhecia a Pedra da Escrita de Serrazes e admirava-lhe a harmonia dos círculos que para mim, durante muito tempo, não passaram disso mesmo: círculos concêntricos gravados num monólito com cerca de dois metros e meio de altura, sendo que dum deles, do maior, constava um raio vertical.
 Estimo terem sido cortados daquela massa de granito com quase 3 metros de altura cerca de 50 cm. no seu ponto mais alto, com o fim de nivelar a face a gravar. Terminada aquela tarefa ciclópica - visto que os recursos oficinais eram escassos – foi-se extraindo mais matéria com o fim de marcar um remate em relevo, moldura endeusando a obra.
 Intrigava-me, além do geometrismo das circunferências que se elevam em elegante curva para a direita, um orifício em meia-cana situado no limite superior da Pedra, abaixo e à direita de um vértice provocado pelo que resta da dita moldura. Trabalhava nela - com ela - há alguns anos e, à força de tanto a viajar, havia pontos estranhos que gostava de ver esclarecidos.
 Desenhei-a, fotografei-a e modelei-a comprimindo finas folhas de papel húmido contra o seu corpo inciso.
 Moldei-a em silicone e com ela comecei a série de trabalhos em "cast-paper" intitulada “exercícios líticos”, que se estendeu a outras gravuras rupestres.
 Encontrava-me um dia num barranco sobranceiro às ruínas de uma das casas do Castro da Cárcoda. Tinha comigo uma vara. Sob o sol de um Junho quente, comentava com um amigo que me acompanhava a existência da Pedra da Escrita de Serrazes a escassos quilómetros, na direcção que apontava.
 Reparei então que a sombra da vara se projectava na parede vertical da habitação, numa linha que, passando pelos meus pés, se inclinava para a esquerda.
 Senti que podia estar próximo de desvendar um segredo guardado há séculos.
 Um quarto de hora depois, alcançava a Pedra, no meio da mata. Trepei pela calota traseira e introduzi a vara no pequeno buraco, em posição vertical à face gravada. A sombra projectava-se sobre o conjunto de concêntricas de maior dimensão, atravessando o ponto central.
 Precisava fixar a vara naquela posição. Fiz-lhe um bisel numa das pontas para a adaptar à forma do buraco e improvisei um atilho com giestas que fixei a cerca de 15 cm. da extremidade anterior da vara, atando-lhe uma pedra na outra ponta.
 Introduzi-a no furo e assim a fixei.
 O peso da pedra - que a obrigava a elevar-se - era suficiente para a manter estável. Depois foi uma questão de ajustar a perpendicularidade do ponteiro.
 Como tinha que partir de uma base que me servisse de padrão, coloquei uma marca no lugar onde a sombra cruzava o centro das circunferências.
 Noventa e cinco centímetros.
 Eram 11:35h. de Sábado, 23 de Junho. Por coincidência, dois dias depois do Solstício do Verão de 1983.
 Com o passar dos tempos tive a oportunidade de conferir que, no Solstício do Verão, àquela hora, a ponta de uma vara com 95 cm. de comprimento indicava com precisão o seu início.
 Segui a sombra do ponteiro durante três meses, por vezes prejudicado pela ramaria dos eucaliptos que entretanto cresceram no terreno, em tempos certamente um descampado. Os carvalhos, abundantes nestes recintos, situam-se a cerca de 200 metros.
 De acordo com a altura do Sol e o movimento da Terra, a sombra ia-se movendo para a direita e para a esquerda, alongando-se depois, mas não ultrapassando os limites do conjunto dos círculos de maior dimensão, os mais próximos do solo, subindo até ao conjunto seguinte com a aproximação do Equinócio do Outono; este é assinalado por um raio que parte de um ponto central de forte expressão. A face gravada permanecia iluminada até cerca das três horas da tarde, altura em que, com o sol a caminho do poente, era tomada pela sombra.
 Chegado o Equinócio de Setembro, o Sol, à medida que baixava, levantava a sombra do ponteiro que me servia de referência de forma que, às mesmas 11h35m. a sombra da sua extremidade se situava no centro do segundo conjunto de concêntricas.
 Acompanhei a viagem da sombra durante o Outono e, tanto quanto me permitiu a luz peneirada pela folhagem da vegetação, fui também conferindo os outros conjuntos de círculos: o do Inverno primeiro, que abre a parte superior do conjunto, depois o da Primavera, encostado ao do Outono.
 Estas constatações e a comparação com outros conjuntos megalíticos da área da arqueoastronomia, levaram-me a concluir que a Pedra da Escrita de Serrazes é um Calendário Solar, que pode ter sido também lugar de rituais relacionados com a agricultura.
 Recentemente alguém me chamou a atenção para uma pedra gravada integrada num caminho da aldeia, com elementos relacionados com os da Pedra da Escrita. Fotografei-a tal como aparecia no muro que o empedrado do caminho escondia e, depois, com a colaboração da autoridade local, levantámos a calçada pondo a descoberto a totalidade da pedra existente, provavelmente o fragmento de uma peça de maior dimensão. Fora reutilizada uma pedra já gravada com um conjunto de “covinhas”.
 É provável que este fragmento - no caso de ter relação com a pedra aqui citada - tenha constituído parte de um arquétipo móvel que, devidamente posicionado, indicaria a posição exacta da definitiva. Se assim for, fica reforçada a tese da utilização “científica” da aludida Pedra da Escrita.
 Encontrei entretanto elementos sobre um outro Calendário Astronómico (nele a Lua tem também a sua importância) em Chacra Mesa, num vale situado no noroeste do Novo México (EUA). Foram movimentadas três enormes lajes que, colocadas ao alto, projectam linhas de luz nas espirais gravadas no rochedo indicando o início dos Solstícios e dos Equinócios. O princípio é o mesmo do da Pedra da Escrita de Serrazes com a diferença de que é um feixe luminoso e não uma sombra que conduz à leitura do instrumento.
C uriosamente, 11h15m é a hora a que a luz atravessa o ponto de início da espiral no Solstício do Verão na “Roca Fajada”. 
 

No Vale do Erges
 A Pedra de Serrazes foi um marco no meu trabalho e, com ela, dei outro rumo à viagem. Viagem que, em 1991, me levou a trabalhar com gravuras rupestres no Vale do Tejo.
 As figuras acéfalas ali existentes colocavam-me uma questão para a qual não encontrava resposta: porquê sem cabeça?
 Encontram-se, próximo de alguns dos núcleos de gravuras, rochas picotadas sem forma definida que sugerem tratar-se de exercícios práticos com o fim de verificar o comportamento da rocha, as suas características, grau de dureza ou forma de lascar.
 Com os utensílios disponíveis na época, seria grande o esforço para concretizar uma figura por picotagem. Mais improvável ainda seria que aquela população se desse ao trabalho de a registar por acaso.
 Deveria haver alguma razão lógica para aquela supressão física.
 Em Maio de 2013 visitei, a convite do arqueólogo Francisco Henriques os "santuários" rupestres do Vale do Rio Erges, afluente do Tejo, que, com ele, delimita a fronteira com Portugal na província Espanhola de Cáceres. Juntou-se-nos Mário Chambino, arqueólogo que faz parte da equipa de investigadores que se dedicam a expedições arqueológicas, com resultados notáveis.
 O caminho que leva ao rio é escarpado, seguimos a salto por trilhos calcados por animais, ou por algum pescador solitário, pois contrabando por ali há já muito que se não pratica.
 Qualquer que seja o sentido em que nos desloquemos, nunca temos uma perspectiva comum do companheiro que nos precede. Ao descermos vimo-lo a pique, abaixo de nós, a cabeça em primeiro plano, as ancas escondendo parte dos membros inferiores.
 Durante a subida o nosso olhar esbarra nas pernas de um corpo a que a gravidade provocada pelo declive, obriga a andar inclinado fazendo um ângulo agudo com o terreno, e numas costas arqueadas, que lhe ocultam a cabeça.
 Apenas as gravuras do abrigo da Foz do Ribeiro das Taliscas eram abstractas, filiformes.
 As do Abrigo Catarina, junto à foz do rio Erges, as da Foz do Ribeiro da Enchacana e as da Tapada da Foz tinham em comum representações antropomórficas com e sem cabeça, uma delas com a cabeça assomando sobre as costas.
  As gravuras acéfalas aparecem descritas nos estudos e registos da especialidade como “não tendo cabeça figurada”. Nunca vi ou li nenhum estudo ou teoria para o facto de serem representadas sem aquela parte do corpo.
 O dia chegava ao fim. Iniciámo-lo com a visita ao Abrigo Catarina, de fácil acesso por se encontrar relativamente perto da ponte de Alcântara, junto do antigo posto de controlo fronteiriço. Os outros dois abrigos, pela dificuldade de acesso acabariam por nos tomar o resto do dia.
 Sentámo-nos numa rocha que mergulhava rio adentro, junto ao abrigo da Foz do Ribeiro das Taliscas comentando a viagem no tempo que nos foi dado viver nesse dia.
 Percorrêramos milhares de anos de história pela ponta de uns dedos já macerados vivendo, através deles, tempos de que não temos memória.
 Chegara a hora de regressar.
 De mochilas às costas e cajados na mão iniciámos a subida. O Chambino como “batedor” seguido do Francisco, eu fechando a fila.

 
 Observava os meus companheiros. Como seguia o Francisco que avançava num plano mais elevado, não lhe via a cabeça e as suas costas faziam um segmento de arco perfeito que lhe ocultava a cabeça (hoje, em função de experiências feitas com base na inclinação do terreno, estimo que o desnível seria, em média, de 50%).
 E com todas as dúvidas que possam ser levantadas, penso que a figuração destes antropomorfos sem cabeça pode ter origem no modo como, tal como eu, ao subir a encosta de regresso ao povoado estes homens se viam uns aos outros e assim se representavam.

 

 

 

terça-feira, 20 de maio de 2014

Workshop Casa do Artista - São Paulo


Gravura, outra.
Trabalhos a decorrer, inscrições bloqueadas.
Uma demonstração da técnica pode ser visionada em

http://vimeo.com/45913230

Palestra - Uma viagem pela gravura rupestre


..."E assim, naturalmente, descobria dolmens e menires que se cruzavam no meu caminho e cuja presença se viria a tornar numa forte componente do meu trabalho.
Comecei por decalcar gravuras rupestres, percorri exaustivamente a viagem do sílex “regressando” à rocha lisa, na esperança de, ao encontrar o conceito, descobrir o objectivo do projecto."
Centro Universitário de Belas Artes, São Paulo
 
 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Obras nómadas


Utilizei tecidos e cordéis de algodão na série “História Trágico-Marítima (S.N.B.A. Lisboa, 1983). As sacas de linho já rasgadas ou os panos de tenda que acoitaram os militares em África transformaram-se em velas de navios que os ventos desfizeram, os cordéis em cabos rebentados pela tensão dos mastros que se despedaçavam em naus desgovernadas.
Voltei a usar preparos similares aos usados na série “…tornando na volta o mar…” (itinerante iniciada na Casa da Cerca, Almada, 2006, e concluída no Centro Cultural da Câmara de Hirado, Nagasaki - Japão), inspirada na “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, recorrendo também a objectos trazidos de territórios por onde se aventurou, a tecidos recortados em formas circulares, evocativas de uma rota traçada pelas estrelas mas que o erro levava, tantas vezes, a voltar ao ponto de partida.
Coube-me em sorte ser eu hoje o viajante e o material que uso nesta obra nómada ser da família do que usei anteriormente, constituindo parte de uma bagagem errante que já naufragou em mares desconhecidos e que, com Fernão Mendes Pinto, viajou pelos mares da China.

 Aqui ficam algumas das mais recentes.




















terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Obra 2014

Gravura (actualizada pela entrada da última obra da série)


Este projecto tem por base os efeitos das sombras ou das linhas de luz solar projectadas em monumentos megalíticos. 
Através das frinchas dos esteios de antas ou de “close-up” em menires, cromeleques ou afins, os feixes de luz revelam a pertinência do tempo entre épocas humanas tão distintas.


“Visão Distante” é o título desta série de obras, dando continuidade ao conjunto anterior, “Visão Interior”, assente nas linhas de luz observadas a partir do interior de antas e de cromeleques.








sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A “cela” dos Tufões ou a Caixa de Pandora

Bola preta (estudo)
Apanhado pelo tufão, não vale a pena resistir-lhe.
Dado o alerta, içado o primeiro sinal, dá-se um salto à livraria, passa-se pelo supermercado e convidam-se alguns amigos para matar o tempo até que a tempestade se desfaça ao entrar pela terra dentro.
 A prudência aconselha a que se protejam os vidros das janelas com fita adesiva.
Um dia em Macau ao entrar na câmara de acesso ao recinto fortificado da Guia, deparei-me com os sinais indicativos da força dos tufões que, suspensos de uma robusta barra de ferro, aguardavam a sua vez de serem içados um por um no mastro donde seriam avistados de terra ou do mar.
Era como se tivesse entrado na Caixa de Pandora tendo tido, por momentos, a sensação de que, se batesse as palmas e os espantasse, soltaria todas as tempestades.
Os bambus ajoelhar-se-iam beijando a terra.
Os tufões provocaram-me sempre um sentimento misto de receio e aventura. O receio de os enfrentar e a aventura de os desafiar. Contagiado pela magia que sobre mim exerciam ou pela imponente presença  dos sinais que regularmente visitava, realizei uma série de trabalhos que intitulei “Sinais de Tufão”.
Gravura
Foi apresentada em Macau em 1995 por iniciativa do IPOR – Instituto Português do Oriente.
Posteriormente foi exposta no Círculo de Bellas Artes em Madrid e no Museo del Grabado Español Contemporáneo em Marbella.
Cascais 2013

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Tejo

                                       

TEJO 

Vamos descendo a encosta aos tropeções, pelo caminho aberto pela escavadora que insiste em sulcar a massa xistosa que se desprende vale abaixo, abrindo um caminho serpentiforme, como que o prenúncio de algumas das formas que, gravadas, encontraremos nas rochas que ladeiam o rio.
 Mais uma curva e, coado pela nuvem de poeira que os nossos pés levantam, surge-nos o Tejo invadindo as margens, apropriando-se delas como que a querer ficar-se por ali, guardião de uma propriedade que lhe pertence.
 
Uma plataforma rochosa, miradouro natural, deixa-nos suspensos sobre o rio. A nossos pés, realmente sob os nossos pés, os barqueiros que nos 
esperam retiram a água que a velha barca deixa entrar.
 
Mãos em concha à volta da boca, como há já muito tempo se fazia, estabeleceu-se o contacto, demos-lhes conta da nossa chegada.

Continuámos a descida, agora aliviada pela visão do rio e das suas margens,   objecto da nossa "exploração". 

Suspensos de um céu refletido nas águas conquistamos a ausência de gravidade e atravessamos o rio. Não se ouve sequer o soar dos remos que os músculos tensos do barqueiro nele cravam.

0 grupo é conduzido pelo Francisco Henriques, arqueólogo ligado à origem de todo o trabalho ali desenvolvido, profundo conhecedor das gentes e do local, elemento indispensável para o sucesso de qualquer visita aos sítios arqueológicos da região. Saltitamos de pedra em pedra no Cachão de S. Simão, escorregando aqui, apoiando acolá as mãos em alguma lâmina de xisto mais elevada. Aparecem então as primeiras gravuras, referências obrigatórias da arte rupestre. Antropomórficas umas, zoomórficas outras, serpentiformes muitas, e sóis, muitos sóis, que também nós vamos venerando como o fizeram os primeiros habitantes do vale do Tejo. 
 
Ajudado pela Sónia, minha filha, estudante de Antropologia, vou tomando as primeiras notas, e juntos vamos descobrindo o modo de fotografar as gravuras (o sol balança-se por perto do zénite, o que facilita a leitura das que se encontram em posição vertical, mas prejudica a das que estão na horizontal). 

O Canau Espadinha, escultor, quarto elemento deste grupo que começa a sofrer os efeitos da desidratação e da falta de alimentos - sem darmos por isso, fomos atirados para as quatro da tarde - perde-se pela aridez da margem, explorando e registando a riqueza das texturas e o cromatismo das lâminas de xisto e, providencial, encontra um pouco de sombra onde abrigarmos a cabeça, visto ser impossível encontrar uma área que nos proteja mais do que isso. 

A comoção causada pelo rigor formal das gravuras e pelas soluções estéticas encontradas era tal que contagiou o grupo.  

Recordo a surpresa que foi a descoberta de uma gravura cujo tema é um antropomorfo levantando um veado morto, como que oferecendo-o ao sol. O recorte do picotado, a mestria oficinal e o modo delicado de o conceber são de um rigor tal que mais parecem saídos do cinzel de um ourives, de tão finamente recortadas e precisas que são as ritmadas incisões. 

E isto revela um cuidado labor, um elevado nível não apenas técnico mas também cultural das gentes que ali viveram e que lavraram as pedras das margens do Tejo nelas plasmando as suas crenças, os seus fetiches, os ícones que, como acreditavam, os ajudavam a sobreviver. Ou a viver. 

Com estes registos ficámos a saber muito mais sobre a história destes Homens. 

Este texto é a versão de um outro com o mesmo título que escrevi para o catálogo[1] da exposição que apresentava o conjunto de obra gráfica inspirado nas gravuras do Vale do Tejo em Ródão, na sequência da primeira visita àquele complexo de arte rupestre.

Foi publicado na edição nº 4 da Revista AÇAFA On Line, nos 40 anos do início da descoberta da Arte Rupestre do Tejo (Associação de Estudos do Alto Tejo).


[1] David de Almeida - Catálogo de Exposição, 1993, Galeria da Livraria Portuguesa. Instituto Cultural de Macau,

 

 

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Uma promessa não cumprida

Prometi fazer a demonstração do calendário solar que é, conforme provei, a Pedra da Escrita de Serrazes.

Razões de ordem vária - burocráticas ou científicas por um lado, motivos de saúde por outro - levaram-me a desistir, de momento, de voltar ao tema. Peço desculpas.

De novo deixo a Pedra entregue a um destino que não lhe devia estar destinado. Com mágoa.

E deixo-lhes hoje uma outra pedra, outra das muitas que são amadas. É um dos rochedos de Central Park, em Nova Yorque, desgastado e polido de tanto amor.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013


TEJO

 

Vamos descendo a encosta aos tropeções, pelo caminho aberto pela escavadora que insiste em sulcar a massa xistosa que se desprende vale abaixo, abrindo um caminho serpentiforme, como que o prenúncio de algumas das formas que, gravadas, encontraremos nas rochas que ladeiam o rio.

 

Mais uma curva e, coado pela nuvem de poeira que os nossos pés levantam, surge-nos o Tejo invadindo as margens, apropriando-se delas como que a querer ficar-se por ali, guardião de uma propriedade que lhe pertence.

 

 

 

 

 

Uma plataforma rochosa, miradouro natural, deixa-nos suspensos sobre o rio. A nossos pés, realmente sob os nossos pés, os barqueiros que nos esperam retiram a água que a velha barca deixa entrar.

Mãos em concha à volta da boca, como há já muito tempo se fazia, estabeleceu-se o contacto, demos-lhes conta da nossa chegada.

Continuámos a descida, agora aliviada pela visão do

rio e das suas margens que irão ser objecto da nossa "exploração".

 

Suspensos de um céu refletido nas águas conquistamos a ausência de gravidade e atravessamos o rio. Não se ouve sequer o soar dos remos que os músculos tensos do barqueiro nele cravam.

0 grupo é conduzido pelo Francisco Henriques, arqueólogo ligado à origem de todo o trabalho ali desenvolvido, profundo conhecedor das gentes e do local, elemento indispensável para o sucesso de qualquer visita aos sítios arqueológicos da região. Saltitamos de pedra em pedra no Cachão de S. Simão, escorregando aqui, apoiando acolá as mãos em alguma lâmina de xisto mais elevada. Aparecem então as primeiras gravuras, referências obrigatórias da arte rupestre. Antropomórficas umas, zoomórficas outras, serpentiformes muitas, e sóis, muitos sóis, que também nós vamos venerando como o fizeram os primeiros habitantes do vale do Tejo.

 

Ajudado pela Sónia, minha filha, então estudante de Antropologia, vou tomando as primeiras notas, e juntos vamos descobrindo o modo de fotografar as gravuras (o sol balança-se por perto do zénite, o que facilita a leitura das que se encontram em posição vertical, mas prejudica a das que estão na horizontal).

 

O Canau Espadinha, escultor, quarto elemento deste grupo que começa a sofrer os efeitos da desidratação e da falta de alimentos - sem darmos por isso, fomos atirados para as quatro da tarde - perde-se pela aridez da margem, explorando e registando a riqueza das texturas e o cromatismo das lâminas de xisto e, providencial, encontra um pouco de sombra onde abrigarmos a cabeça, visto ser impossível encontrar uma área que nos proteja mais do que isso.

 

A comoção causada pelo rigor formal das gravuras e pelas soluções estéticas encontradas era tal que contagiou o grupo.

 

Recordo a surpresa que foi a descoberta de uma gravura cujo tema é um antropomorfo levantando um veado morto, como que oferecendo-o ao sol. O recorte do picotado, a mestria oficinal e o modo delicado de o conceber são de um rigor tal que mais parecem saídos do cinzel de um ourives, de tão finamente recortadas e precisas que são as ritmadas incisões.

 

E isto revela um cuidado labor, um elevado nível não apenas técnico mas também cultural das gentes que ali viveram e que lavraram as pedras das margens do Tejo nelas plasmando as suas crenças, os seus fetiches, os ícones que, como acreditavam, os ajudavam a sobreviver. Ou a viver.

 

Com estes registos ficámos a saber muito mais sobre a história destes Homens.

 

 

Este texto é a versão de um outro com o mesmo título que escrevi para o catálogo[1] da exposição que apresentava o conjunto de obra gráfica inspirado nas gravuras do Vale do Tejo em Ródão, na sequência da primeira visita àquele complexo de arte rupestre.

Foi publicado na edição nº 4 da Revista AÇAFA On Line, nos 40 anos do início da descoberta da Arte Rupestre do Tejo (Associação de Estudos do Alto Tejo).



[1] David de Almeida - Catálogo de Exposição, 1993, Galeria da Livraria Portuguesa. Instituto Cultural de Macau,

sábado, 14 de janeiro de 2012

Fundamento do Limite

Ao abordar uma espécie de representação limitada, ou no limite, David de Almeida [...]propõe-se fundamentar o exercício do nivelamento no quadro perceptivo sobre os materiais. Trata-se, com efeito, de um exercício sublimado que parece determinado a abrir o sentido das coisas, das matérias, entre fugidios sinais de atividades quase apagadas, manchas furtivas, fraturas de contração, cortes lógicos do vazio. [...]

extrato de um artigo de Rocha de Sousa publicado no JL 14 a 27 Dezembro 2011













sábado, 12 de novembro de 2011

Aparências do abismo

"[...] Está subjacente a esta obra um exercício sublimado que remete, de imediato, para uma aproximação a algo de mais profundo. Daí que na superfície da tela ou do papel, através de terras gretadas, de negros queimados, de cálidos carmesins e de inquietantes cinzentos, de materiais sólidos como a serapilheira, o cobre, o contraplacado de madeira, o ferro e o aço inoxidável se contextualize uma simultaneidade epistemológica em que a representação é limitada, o que não exclui nenhum significado possível, mas apenas linhas de um horizonte perdido, espaços desérticos, o vazio, nos quais encontramos o fervilhar do pensamento, facultando o momento da reflexão.

Mas... onde conduz esta introspecção que surge daquilo a que Barnett Newman chamou a “verdade do vazio”? Esse vazio conduz à plenitude, a partir do desconhecimento inerente a todo o princípio até que a obra esteja concluída. O caminho, o processo, não está previamente definido, vai-se descobrindo enquanto o trabalho vai tomando forma, à medida que a obra se vai construindo.

David de Almeida converte o espaço revelado no lugar da epifania, mas fá-lo devido a um registo variado de sugestões, baseadas em tonalidades e geometrias diversas, sem recorrer a convincentes preceitos morais perante os quais o espectador se possa sentir manipulado. A obra resulta então num espelho da consciência do homem que a concebe e é nessa exploração que o espectador se dá conta de como se pode encontrar a si mesmo.[...]"

Carlos Alcorta, Apariencias del abismo. In catálogo exposição David de Almeida, Sala Robayera. Miengo, Cantábria, Espanha. Março, 2011

Tradução de David de Almeida

quarta-feira, 22 de junho de 2011

mas não subiu para as estrelas se à terra pertencia

A proposta consistia em projectar um memorial para José Saramago, a implantar em frente à Casa dos Bicos, Sede da Fundação que tem o seu nome. Ali seriam depositadas as cinzas de José junto de uma oliveira vinda da Azinhaga, sua terra natal, donde vieram também muitas das suas memórias de infância.
Um banco onde os visitantes se sentassem deveria fazer parte do conjunto.
A frase que serviu de epitáfio a Baltazar Sete-Sóis no "Memorial do Convento" seria também o epitáfio de José Saramago.
O lugar não era pacífico, dada a sua carga histórica.
Mas seria, também por isso mesmo, o mais indicado para acolher as cinzas do Nobel. Será certamente um lugar muito visitado, quase diria de peregrinação, sobretudo por parte dos povos Hispânicos que, com alguma razão, o consideram também seu.
O meu primeiro pensamento voou para as cerimónias rituais dos povos que deram origem à Turquia, concretamente Çatal Huyuk ou, mais recentemente, dos Romanos que conviviam com os seus após a morte integrando-os nos espaços onde se reuniam para comer ou para dormir.
E assim também ele, José, o generoso e solidário, estaria sempre junto de nós, sempre à mão para um conselho avisado "de optimista bem informado"* .
E nessa base se esboçaram algumas ideias que, por razões várias foram ficando pelo caminho.
Dadas as dificuldades em construir em altura - a proposta mais elevada até então tinha um metro e cinco centímetros contados do chão - sugeri uma faixa em lioz com o texto constituído por letras em latão embutido na pedra, a incrustar na calçada em ambos os lados da oliveira cuja caldeira atravessaria.
Esta foi a ideia que conseguimos aprovar e que todos abraçámos. Está lá mas não se impõe. Há que descobri-la.
Começava a escassear o tempo para execução dos trabalhos mas faltava-nos ainda o banco. Foi um desejo do José, havia que cumpri-lo. O visitante ou o turista poderiam ali sentar-se a folhear um livro, a olhar o Tejo, ou simplesmente a descansar à sombra da oliveira.
A Pilar pediu que o banco fosse confortável, que não tivesse arestas que perturbassem quem nele se sentasse. Um banco onde se estivesse bem.
Espero ter correspondido ao desejo de ambos.
A rocha utilizada foi lioz, pedra que é a base da construção do Convento de Mafra; os artesãos que comigo colaboraram são da região de Pero Pinheiro, gente que o José tão bem retratou no "Memorial do Convento" e que generosamente colaborou na execução do Memorial.

* quando diziam que JS era um pessimista ele esclarecia que um pessimista é um optimista bem informado

mas não subiu para as estrelas se à terra pertencia


A proposta consistia em projectar um memorial para José Saramago, a implantar em frente à Casa dos Bicos, Sede da Fundação que tem o seu nome. Ali seriam depositadas as cinzas de José junto de uma oliveira vinda da Azinhaga, sua terra natal, donde vieram também muitas das suas memórias de infância.
Um banco onde os visitantes se sentassem deveria fazer parte do conjunto.
A frase que serviu de epitáfio a Baltazar Sete-Sóis no "Memorial do Convento" seria também o epitáfio de José Saramago.
O lugar não era pacífico, dada a sua carga histórica.
Mas seria, também por isso mesmo, o mais indicado para acolher as cinzas do Nobel. Será certamente um lugar muito visitado, quase diria de peregrinação, sobretudo por parte dos povos Hispânicos que, com alguma razão, o consideram também seu.
O meu primeiro pensamento voou para as cerimónias rituais dos povos que deram origem à Turquia ou, mais recentemente, dos Romanos que conviviam com os seus após a morte integrando-os nos espaços onde se reuniam para comer ou para dormir.
E assim também ele, José, o generoso e solidário, estaria sempre junto de nós, sempre à mão para um conselho avisado "de optimista bem informado"* .
E nessa base se esboçaram algumas ideias que, por razões várias foram ficando pelo caminho.
Dadas as dificuldades em construir em altura - a proposta mais elevada até então tinha um metro e cinco centímetros contados do chão - sugeri uma faixa em lioz com o texto constituído por letras em latão embutido na pedra, a incrustar na calçada em ambos os lados da oliveira cuja caldeira atravessaria.
Esta foi a ideia que conseguimos aprovar e que todos abraçámos. Está lá mas não se impõe. Há que descobri-la.
Começava a escassear o tempo para execução dos trabalhos mas faltava-nos ainda o banco. Foi um desejo do José, havia que cumpri-lo. O visitante ou o turista poderiam ali sentar-se a folhear um livro, a olhar o Tejo, ou simplesmente a descansar à sombra da oliveira.
A Pilar pediu que o banco fosse confortável, que não tivesse arestas que perturbassem quem nele se sentasse. Um banco onde se estivesse bem.
Espero ter correspondido ao desejo de ambos.
A pedra utilizada foi lioz, rocha que é a base da construção do Convento de Mafra; os artesãos que comigo colaboraram são da região de Pero Pinheiro, gente que o José tão bem retratou no "Memorial do Convento" e que generosamente colaborou na execução do Memorial.

* quando diziam que JS era um pessimista ele esclarecia que um pessimista é um optimista bem informado

O banco